sábado, 31 de janeiro de 2015

A sexta-feira e o congelador



   Morar sozinha tem ônus e bônus, e só quem faz parte do seleto time do "Me, Myself and I" sabe do que eu estou falando. O dilema do combo cansaço+jantar é parte disso.

   Trabalho, supermercado, e finalmente casa. O corpo pede descanso, mas a alma pede pela caipiroska (que invariavelmente não consigo terminar) e pela música do barzinho favorito . A falta de companhia aborta o plano. Resta obedecer à vontade do corpo. Ah, ainda preciso comer... 

   Quando eu comprei isso? 

   Nossa, acabei de sair do mercado e não lembrei que a margarina estava no fim.

   Olha! Ainda tenho um pouco da minha geléia de cabernet aqui, que fica perfeita com as torradas que eu trouxe.

   Validade vencida. Lá vai mais um pote de iogurte para o lixo...

   Será que foi minha mãe que deixou isso no congelador, ou foi o Alexandre, quando esteve aqui?

   Portillo, me aguarde que já já chega sua vez!

   Frango, tempero... Ok, resolvido! 

   Enquanto a Air Fryer faz seu trabalho, me pego pensando que as surpresas do armário e do congelador acontecem todo o tempo, mas só percebemos quando, de fato, precisamos encará-las. 

   Descobrir um sentimento que estava ali e você não sabia.

   Perguntar-se o que fazer com a solidão da sexta-feira.

   Perceber que o prazo de validade daquele relacionamento (?) venceu, e é preciso se desfazer dele, antes que te prejudique.

   Animar-se com as oportunidades que ainda estão ali e você pensou que já não existiam. Ainda dá para aproveitá-las!

   Entender que, se bem utilizadas e combinadas com os ingredientes certos, até aquelas pedras que você não tinha notado no caminho podem render algo de bom.

   Dar-se conta de que às vezes você nem sabe dizer quem ou o que  deixou aquele sentimento em você, e que só importa, de fato, o que você decide fazer com ele.

   Opa, tá pronto. Deixa eu atender o pedido do corpo. Com a alma, eu me entendo amanhã.


    

quinta-feira, 29 de janeiro de 2015

In vino veritas



   Peça a quem bem me conhece que me associe a algo, e a resposta certamente será automática: CAFÉ. E por que, então, um post sobre vinho?

   Novas (e arrebatadoras) paixões  acontecem. O que de maneira alguma significa a morte das antigas. As minhas, aliás, coexistem em paz, sem a mínima necessidade sequer da famosa D.R. Se entendem, se completam. ME completam.

   O café já tem seu posto garantido. É aquele amor maduro, dito diariamente,  mas já no estágio da pacificidade, que só a segurança e certeza dos longos e cúmplices amores traz. Me faz companhia, é parceiro na outra paixão (os livros), me traz conforto ao exalar seu cheiro já há tempos conhecido e não por isso menos amado, me faz suspirar profundo e dormir tranquila. É, até a cafeína já entendeu a nossa ligação.

   O vinho, por sua vez, é a paixão em estágio inicial e intenso. É a vontade de descobrir cada detalhe do novo amante, de entender devagar como reconhecer suas melhores qualidades e como permitir que ele lhe invada, sem que se perca o juízo (ou propositadamente se deixando perder). É a secura na boca num momento tenso, e o esquentar do sangue ao senti-lo percorrer o corpo. É conhecer, aos poucos, cada nuance, quais delas encantam mais, e quais podem ser deixadas de lado sem prejuízo à intensidade do envolvimento. É o aguardo do próximo encontro e de qual novidade virá com ele. É a sensação de encantamento, de aos poucos evoluir do "estamos nos conhecendo melhor" para o "ele tem o que eu preciso". É saber que há muito mais a desvendar, e encontrar nessa certeza o tesão necessário para prosseguir a busca. Dionísio tinha razão, inclusive, em perder a razão.

    Essa relação ainda "verde", característica natural de certa variedade de uvas e do início de grandes histórias, começou como tantas outras: por meio de um amigo em comum. Buscando o clima "mi casa, su casa" ,vali-me da intuição dos leigos na escolha da rolha e ... voilá ! Percebi-me entregue ao charme rubro e perfumado, derramado habilmente nas taças pelas mãos precisas daquele que nos aproximou. Atirei-me sem rede de proteção à leveza que chegava aos goles. Ele, o vinho, chegou para completar o cenário e seguir comigo depois que o instante (não sem deixar um sorriso na lembrança e um arrepio na memória da pele) passou. "Blind date" que valeu cada gota sorvida. Rubi e marfim. Aposta acertada. Duplamente acertada.

    O título do post é meio óbvio e previsível. O restante da minha história com essa nova red passion, não. Ainda bem que não.

    Cheers!

Sobre o que me move


É fato que algumas paixões vem com o tempo. E, pela mesma via, outras se vão (ou, pelo menos, nos tocam com menor intensidade). No intervalo, há, ainda, aquelas que adormecem. Dessas, o destino é quase sempre incerto... ou desvanecem, ou voltam com força total.

Assim aconteceu com uma das minhas "cachaças": escrever. Sem obrigação, sem vertente definida, sem pretensão (não me atrevo ao título honroso de "escritora"), sem rótulo, sem nexo até, algumas vezes, por que não? A escrita adormeceu, e ficou escondida durante alguns anos, sob o manto das obrigações borbulhantes que a vida real nos impõe. Até que chega, enfim, o momento em que essa paixão exige retornar à superfície para respirar o novo e levar para o fundo de si mesma o que captou em cada suspiro. E eu não ouso me recusar a atender-lhe o grito.

O blog nasce hoje atendendo a essa urgência. Do meu vício por café e tudo que dele é feito, das tatuagens (as do corpo e as da alma), do vinho (paixão novinha e com aquela deliciosa sensação de comecinho de "namoro"), dos livros e do cheiro que só eles tem, dos textos e trechos que não escrevi, mas que me desnudam, da música que me embriaga e me acalma, das viagens (físicas ou espirituais) , da saudade da minha terra, das fotos, das descobertas, do tempo que corre lá fora e mexe com tudo aqui dentro, das divagações que a alma já se recusa a sufocar. Até porque só estou presa, agora, à minha liberdade.

Welcome to the desert of MY real world!